As ações

OS ENSAIOS ABERTOS

  

Quisemos abrir, escancarar, a sala de ensaio, a processo de trabalho. Ao invés de apresentar um resultado pronto depois de meses, achamos que seria mais karaniano expor a obsessão do processo, os erros e acertos. Afinal, Karam compartilhava, em seus escritos, não apenas seus pensamentos como também como chegou até eles – aquela deliciosa neurose com a qual tanto nos identificamos. Então, todas as segundas-feiras às 15h, desde o dia 16 de janeiro, vem gente aqui na sala de ensaio trocar com a gente: nós oferecemos algumas cenas que surgem e o público, generosamente, nos oferece um olhar diferente, uma opinião, que serve de material para a peça. Isso nunca acaba.

A PEÇA

    
Baseada em texto inédito do Karam, o livro “Mesmas Coisas”. Mas não há pretensão de reprodução fiel ou de sacralização ou de adaptação do texto literário para o palco. A proposta é atritar o conteúdo e a forma e talvez, com sorte, provocar uma chama. (Chamem os bombeiros!). O projeto propõe encontros com o público num formato de fronteiras borradas, onde cabe uma peça, uma serenata, uma performance, uma exposição, um filme, tudo isso numa espécie de quebra cabeças, um puzzle, uma farra! diria o Karam, um jogo sem fim entre os textos do Karam e as nossas obsessões ordinárias.

O projeto tem uma série de apresentações marcadas em diversos espaços diferentes na cidade, propositalmente, é claro. A busca por espaços culturais alternativos, ou até mesmo a rua, para as ações e intervenções, é dado fundador do projeto. Karam não era convencional ou tradicional, era experimental. O autor morou anos na Rua São Francisco no centro de Curitiba, transitava frequentemente pelo Largo da Ordem, era uma pessoa da rua, um transeunte, uma pessoa que ocupava o espaço público. Circulava livremente entre meios e linguagens, formas e espaços.

OS LAMBE-LAMBES

   lambe site  

O arquiteto Luca Fischer, responsável pela identidade visual do projeto, desenvolve colagens baseadas na obra do Karam que são transformadas em lambes e espalhados pela cidade. Até o momento foram feitas intervenções na Livraria Arte & Letra, na escadaria do Teatro Universitário de Curitiba (Largo da Ordem) e em ruas. Não são ilustrações de passagens dos textos, mas sim com uso dos mecanismos da linguagem karaniana. Também frases do livro inédito são usadas, o tem gerado inclusive situações inusitadas, como pessoas respondendo os lambes (nos lambes!). Uma farra. A literatura de Karam nos leva para a rua, borra margens, complementa ideias. É isso que tentamos explorar em todas as ações desse projeto.

AS LEITURAS

  

A proposta partiu de Valêncio Xavier, que descreveu, na orelha do livro “Comendo Bolacha Maria no dia de são nunca”, um “jogo-brincadeira”: “O Karam está escrevendo o mesmo livro, só grandes escritores conseguem isso – o Kafka só escreveu um livro com vários nomes, o Machadinho idem. O livro do Karam se chama Fontes Murmurantes e O impostor no baile de máscaras e esse agora. A vantagem do cara (Karam) fazer um livro assim é que esse jogo nunca acaba e você pode entrar nele quando quiser. Experimente: pegue a 345ª linha deste livro, leia e pule para a 84ª do Cebola e volte para o assunto que está começando na 42ª deste livro (ou de outro do Karam) e verá como tudo se encaixa”.

Reunimos várias pessoas no dia 23 de novembro de 2016 e vários livros do Karam na Casa de Leitura (Casa da Leitura Manoel Carlos Karam, vejam bem, lá no Parque Barigui) e fizemos essa dinâmica, uma espécie de “flash mob” de leitura. Cada um dizia um número, abria qualquer livro em uma página e está lá: o mesmo livro, as mesmas coisas.

 

AS SERENATAS

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Karam propõe músicas, e o que fazemos é musicar trechos do livro, trazer a ficção para a realidade, borrar essas margens, colocar um trecho do livro na vida real das pessoas. Quando começaram as notícias de que não haveria verba destinada para a Oficina de Música ou para o Carnaval em Curitiba, um minucioso exame clínico apontou para o diagnóstico: falta de música e de folia é prejudicial à saúde da cidade. Então é assim, saimos em uma serenata ambulante em diferentes pontos da cidade.

Foram três apresentações  , em diferentes pontos da cidade de Curitiba: Praça Nossa Senhora da Salete, Praça Santos Andrade e Praça Osório. Começamos com o dia ensolarado e terminamos embaixo de chuva. Curitiba não falha! E como diria o Karam,  nunca teve chuva que nos ganhasse! Uma experiência incrível que pretendemos repetir.

 

O FILME

  
Karam era obcecado por cinema e por fazer roteiros de filme, e nos escritos inéditos das “Mesmas Coisas” há uma proposta de roteiro de cinema. Aceitamos esse desafio e decidimos experimentar essa montagem, colocá-la em filme. As gravações, dirigidas por Alan Raffo e Nadja Naira e com Marc Olaf, Luca Fischer, Michelle Pucci, Edson Rocha e Muhammad Chab como atores, começaram no início de fevereiro.

A PUBLICAÇÃO

  
E as farras não acabam por aí.  Luci Collin, escritora e professora doutora na UFPR, participa do projeto como testemunha ocular da história, vivenciando ensaios e interagindo com textos criados em tempo real.

Luci está colaborando ativamente na composição do conteúdo do site e de uma futura publicação, uma revista testemunha do processo do projeto Mesmas Coisas.